
Foi pelos Châteaux que resolvemos ir a Saint – Emílion.
Não pelos verdadeiros Castelos de cavaleiros e donzelas, mas sim pelas propriedades vinícolas, que localmente se apelidam de Châteaux.
Dizem que são cerca de 800 naquela região e que gerem mais de 7.800 hectares de vinha.
Saint -Emílion fica a cerca de 45 kms de Bordéus, para lá chegarmos alugamos um carro, que levantamos no aeroporto.
Saint – Emilion é apenas uma das denominações existentes em Bordéus, que é enorme, a maior do planeta, Sabiam?
Bordéus significa “à borda d`água” e porquê? Porque esta, é literalmente a situação da região, que está localizada entre três rios, Dordogne, Garonne e Gironde. Os rios dividem o território em três macrorregiões que formam a maior área em extensão de denominação de origem do planeta, com mais de 50 demarcações AOC (Appellations d’Origine Contrôlée).
As três sub-regiões de Bordeaux são: Margem Direita, Margem Esquerda e Entre-Deux-Mers. Cada uma tem suas próprias características, influenciadas pelos rios que passam por elas e pelos solos de características completamente distintas .
A Margem Direita abrange denominações icônicas como Saint-Émilion e Pomerol. onde, graças aos seus solos argilosos se produzem vinhos macios, frutados e sedutores.
Na região de Saint – Emílion, existem 12 denominações de origem vinícolas, as mais conhecidas são a Saint Emilion e a Saint Emilion Grand Cru. Esta ultima, agrupa os três melhores vinhos, o Grand Cru, o Grand Cru Classé e o Première Grand Cru, que se divide em A e B.
É o Premiére Grand Cru A que tem a mais alta classificação e são apenas quatro casas vinícolas que o produzem atualmente.

Muito perto de Saint – Emílion, fica o pequeno vilarejo, Pomerol, outra das zonas demarcadas dos vinhos de Bordéus e que detém alguns dos melhores vinhos desta região e aquele que dizem ser o melhor do mundo, o Petrus.
Perto deste vilarejo fica ainda outra das zonas demarcadas menos conhecida, mas de vinhos de excelente qualidade, Laland de Pomerol.
Ainda em Lisboa marcamos a visita a um Châteaux. Como não tínhamos qualquer referencia, tentamos um, que tivesse visita guiada em Castelhano e assim chegamos às Vignobles Chatonnet – Château Haut Chaigneau, situado na zona de Lalande de Pomerol.


O Château sai do estilo francês e incorpora os gostos requintados da família Chatonnet, pela arte e arquitetura italiana.
Esta propriedade familiar está situada no cruzamento das denominações de origem Lalande-de-Pomerol, Saint-Emilion e Montagne Saint-Emilion, em pleno coração dos vinhedos e onde se cultivam as melhores variedades de uva da região: Merlot noir, Cabernet Franc e Malbec.
A propriedade está exatamente na antiga rota de peregrinação a Santiago de Compostela e por isso a família introduziu várias referencias ao Santo, quer nos rótulos, quer nos nomes dos vinhos que produzem.
A visita guiada, dura cerca de uma hora e pode ser feita em francês, inglês ou castelhano.

Durante a visita percorremos os vinhedos, que começamos por avistar da varanda que se estende acima dos mesmos, e dentro do Temple du Vin, o nome dado ao edifício principal, entramos na adega de criação e de estagio do vinho, terminando na sala de degustação, onde além de nos colocarmos à conversa com M. Pascal Chatonnet, o dono, enólogo e muito conhecedor dos vinhos portugueses, ainda nos deliciamos com as degustações de 4 dos melhores vinhos de produção no Châteaux.

Uma curiosidade: Sabem porque é que as barricas tem uma faixa vermelha a meio? Por questões de limpeza e estética. A faixa vermelha é “pintada” com a tintura da uva misturada com sumo de romã romã e serve para evitar que quando se abra a barrica para acrescentar liquido ou para tirar amostras a mesma não fique pingada e escorrida, dando assim um aspeto limpo à adega.



Saímos de lá verdadeiramente fascinados com a informação obtida e rumamos à vila medieval de Saint -Emílion.
Com mais de treze séculos de história, é um verdeiro museu a céu aberto.
Foi fundada ao que se julga por Emílion, um bretão conhecido pelos seus milagres que se veio refugiar numa gruta em Ascumbas, nome que antigamente se dava ao local que hoje é conhecido por Saint – Emílion.

A ele juntaram-se monges beneditos, que formaram a primeira comunidade religiosa e evangelizaram a população local.
Outras congregações vieram e fixaram-se no local e para construir os seus mosteiros foi necessário extrair pedra calcaria dos solos. Calcula-se que se tenham escavado mais de 200 quilómetros de túneis debaixo da vila, tendo sido a extração da pedra a principal atividade económica da região, até ao seculo XIX, data em que a vinha e o vinho vieram ocupar o seu lugar.

Em 1999 a “juridition de Saint – Emílion” foi inscrita na lista de Património Mundial da Humanidade como paisagem cultural, sendo portanto o primeiro vinhedo do mundo a receber esta classificação da UNESCO.

Ao chegar à vila deparamo-nos com aquilo que é chamado de Grande Muralha. É apenas o que resta do Mosteiro Dominicano do século XII, que durante a Guerra dos 100 Anos foi abandonado e voluntariamente destruído, mantendo apenas esta edificação como testemunho histórico.

Depois de deixarmos o carro, entramos na Igreja Colegial e Claustro, com entrada gratuita, foi morada dos monges Agostinhos até à revolução francesa. A visita aos claustros é obrigatória.



Caminhamos depois até ao posto de turismo, onde compramos as entradas para a visita guiada aos subterrâneos da vila, trouxemos mapas e recolhemos informação, mas aqui, podem também saber qual é o Chateux du Jour, ou seja, os Chateux não estão, na sua maioria abertos para visitas sem marcação. Há no entanto alguns que ficam disponíveis em determinado dia para receber visitantes sem marcação prévia e estão identificados no posto de turismo .
Uma curta paragem para contemplar a Praça da Igreja monolítica, por aquelas horas repleta. Estamos junto à Torre do Sino, o local mais alto da cidade, daqui a vista é deslumbrante.

Deambulamos pelas ruas em direção ao Cloitre des Cordeliers (ou claustros dos Cordeliers, nome que se dava aos monges franciscanos, por referência à corda que usam nas suas vestes). Os franciscanos chegaram a Saint-Émílion no início do século XIII e ali permaneceram até à Revolução Francesa, quando foram expulsos.
Em 1791 o mosteiro foi vendido como bem nacional e quase um século depois, os proprietários decidiram utilizar a propriedade para começar a produzir espumante e transformar o subsolo em cave. O acesso às ruínas do claustro e ao jardim é gratuito. O local conta ainda com um bar “Bar à Bulles” e visitas guiadas às adegas subterrâneas.

Do miradouro em frente tem-se outra perspetiva da vila, estamos de frente para a Torre do Sino e para aquilo que achamos ser a Igreja Monolítica e ainda avistamos a Torre do Rei.
Seguimos rumo à Praça da Igreja Monolítica, passando pela Porta de Cadéne, a entrada fortificada no interior da vila que separava a cidade alta, da cidade baixa, ou seja, os ricos dos pobres.
A casa de madeira junto da porta, que atualmente está em obras, julga-se ser a casa mais antiga da vila.


Chegamos em frente à grande porta da Igreja Monolítica, localizada no centro da vila.
Depois de uma pequena introdução a guia leva-nos a Gruta do Ermita uma pequena gruta onde se julga morava Emílion. A lenda do século VIII, relata que Emílion trabalhava como cozinheiro na casa de um nobre da região francesa da Bretanha e aproveitando-se da facilidade de chegar aos alimentos, colocava alguns pães debaixo das vestes, para os dar aos pobres. Um dia, ao ser surpreendido Emílion terá afirmado que levava madeira debaixo das vestes e, quando ele as levantou, os pães tinham- se transformado por milagre em madeira. As histórias de sua generosidade foram-se espalhando pela região.
Dentro da gruta, é possível ver a “cama” de pedra onde ele dormia, os pequenos canais de onde bebia água e o altar de pedra, que segundo a lenda, as mulheres estéreis que ali se sentam ficam grávidas.
Continuamos até Capela da Trindade, construída no século XIII e que foi também armazém de especiarias e fábrica de barris, o que permitiu a preservação dos frescos coloridos que lhe cobriam as paredes durante a Revolução Francesa.
Caminhamos depois pelas galerias subterrâneas e catacumbas que até hoje continuam em estudo e chegamos finalmente à Igreja Monolítica, a maior igreja subterrânea da Europa, com 38 metros de comprimento, 20 metros de largura e 11 metros de altura.
O espaço em si impressiona pelas suas dimensões. Quem está do lado de fora não consegue sequer supor a sua grandiosidade. A igreja está situada mesmo por de baixo da Torre do Sino, cujo peso, 4 toneladas e meia , é suportado por três pilares, que hoje estão reforçados por uma estrutura de ferro.
Sem esses reforços a igreja corria o risco de colapsar, devido não só ao peso, mas também ao entupimento do sistema de drenagem de águas existente no seu solo e elaborado pelos monges, que hoje, depois de limpo e desentupido, é controlado pelas suas “janelas”.
À semelhança de todos os espaços religiosos, esta igreja foi tambem vendida durante a Revolução Francesa e foi convertida numa fabrica de nitratos que serviam para fabricar pólvora. A busca por esse mineral levou a que as paredes da igreja fossem raspadas, fazendo desaparecer as pinturas que as cobriam.
Restam ainda na abóboda as imagens de dois anjos serafins e dois signos do zodíaco, sagitário e gémeos que se julga representarem os solstícios de inverno e verão.
È também neste local que se reúne a “Jurade de Saint- Emilion”, a confraria vinícola constituída por vinicultores da denominação de origem controlada de Saint – Emilion.
Estas reuniões ocorrem duas vezes no ano, em junho na floração das vinhas e em setembro quando é proclamado o inicio das vindimas.



A visita tem duração de uma hora e é, em nossa opinião, imperdível, tendo de ser previamente marcada no Posto de Turismo uma vez que há um número limite de participantes, por visita.
Quando fomos havia mais que uma visita, pelo menos de tarde.
O valor da visita guiada é €. 15,00/adulto e, pelo menos na data em que fomos, eram efetuadas apenas na língua francesa, mas dão informação escrita em Português e noutras línguas.
Não é permitido tirar fotografias do interior, pelo que, sem registos fotográficos, deixamos a visão do monumento ao critério do vosso imaginário, com a garantia que é uma experiencia fantástica.
De volta ao estacionamento houve ainda tempo para passar na Mouliérac e provar os Macarons de Saint Emílion, diferentes dos que nos habituamos a ver, estes mais parecem uma simples bolacha de amêndoa, não amamos. A casa é também famosa pelos Canéles, que segundo dizem são criação da Vila.




Guia Prático para uma visita a Saint -Emílion
- Um dia é suficiente para descobrir a vila.
- É possível fazer um day tour a partir de Bordéus, existem transportes públicos para chegar a Saint-Emílion (autocarros e comboios regulares) podem por isso dispensar o aluguer do carro, no entanto, ficam mais limitados nas deslocações.
- Se estiverem de carro não se esqueçam que o estacionamento é todo pago na vila, mas existem vários parques ao seu redor. Por 4 horas pagámos €.6,30, não facilitem a fiscalização é apertada e as multas elevadas.
- Não deixem de visitar um Château, se não tiverem preferência ou se não quiserem levar nada marcado, passem pelo Posto de Turismo e vejam qual é o Château du Jour.
- Ainda no Posto de Turismo, adquiram as entradas para a visitam à igreja monolítica, é uma experiencia inigualável.
- Vão ver os claustros dos Cordelieres e bebam um copo de espumante produzido e conservado nas suas caves
- Provêm os Macarrons de Saint Emilion, diferentes dos restantes, são uma espécie de bolacha de amêndoa ou se preferirem provem os Canéles.

Esta viagem foi realizada de 17 a 21 de Fevereiro de 2023, enquadrada na nossa visita a Bordéus, que se não acompanharam podem faze-lo agora.
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