
Há lugares que nos fazem abrandar sem darmos conta. Assim que o ferry se aproxima de Miyajima e o enorme torii vermelho começa a ganhar forma no horizonte, sente-se que estamos prestes a entrar num lugar especial. Não é apenas pela beleza do cenário — é pela atmosfera. Uma mistura de espiritualidade, natureza e silêncio que contrasta com o ritmo urbano de Hiroshima, a poucos minutos de distância.
A aventura começa logo na Estação de Hiroshima. Já vos falei desta estação? É um mundo a parte, aliás o Japão é um mundo a parte.
Na estação de Hiroshima podemos tomar o pequeno-almoço, comprar snacks, café ou o que nos lembrarmos, mas o nosso objetivo por agora era chegar ao porto para apanhar o ferry para Myajima
Como chegar de Hiroshima a Miyajima?
A opção mais rápida e comum: Comboio e Ferry
Esta é a rota preferida da maioria dos viajantes, especialmente os que possuem passes da JR e foi a que utilizamos.
Primeiro apanhamos o comboio na linha JR Sanyo, que sai da Estação de Hiroshima e vai até à Estação Miyajimaguchi.
- Tempo de percurso: Cerca de 25-30 minutos.
- Custo: Aproximadamente 420 ienes (preços de 2026) mas está incluído no JR Pass.
Ferry: Ao saírem da estação de comboios, caminhem cerca de 5 minutos até ao terminal de ferries.
Existem duas companhias: a JR Miyajima Ferry e Miyajima Matsudai Kisen.
- Tempo de percuso:10 minutos de travessia.
- Custo: 200 ienes ou incluído no Passe da JR, caso o tenham
- Dica: O ferry da JR costuma passar mais perto do famoso portal Torii flutuante.
2. Elétrico (Tram) + Ferry (Opção mais barata e boa para quem fica alojado no centro da cidade)
- Apanhem a linha nº 2 (Hiroden) no centro de Hiroshima em direção a Hiroden-Miyajimaguchi.
- Tempo: Cerca de 60-70 minutos (é consideravelmente mais lento que o comboio).
- Custo: Cerca de 240 ienes. Do terminal de elétrico, o acesso ao ferry é imediato.
3. Barco Direto (World Heritage Sea Route)
Esta opção liga diretamente o Parque Memorial da Paz (perto da Cúpula da Bomba Atómica) à ilha de Miyajima.
- Ponto de partida: Cais de Motoyasu.
- Tempo: Cerca de 45 minutos.
- Custo: Aproximadamente 2.200 ienes (ida) ou 4.000 ienes (ida e volta). É a opção mais cara, mas evita transbordos e oferece vistas do rio.
Taxa de Visitante (Importante)
Desde 2023, todos os visitantes de Miyajima tem de pagar uma Taxa Turística de 100 ienes.
- Se comprarem um bilhete individual ou usarem cartão IC, a taxa costuma estar incluída no preço.
- Portadores de JR Pass: Devem adquirir um bilhete separado de 100 ienes nas máquinas automáticas antes de embarcar no ferry
A travessia dura cerca de 10 minutos e é ai que começas a perceber que esta vai ser uma visita especial.
As Marés
Se tiverem sorte com os horários da maré, conseguem viver duas experiências diferentes:
- Maré cheia: o torii e o santuário parecem flutuar.
- Maré vazia: podem caminhar até à base do torii.
Nós apanhámos a maré a descer, o que criou reflexos lindíssimos na água. Um daqueles momentos em que ficamos só a observar, em silêncio.
O grande símbolo: Itsukushima Shrine

O momento em que o ferry se aproxima do enorme torii é inesquecível (nós por sorte apanhamos o ferry da JR).
O Santuário Itsukushima


O grande símbolo do Itsukushima Shrine é, sem dúvida, o torii vermelho construído sobre a água, mas o verdadeiro encanto está em toda a complexidade espiritual e arquitetónica do santuário. Mais do que um monumento turístico, este é um dos locais sagrados mais importantes do xintoísmo japonês.
O santuário é dedicado às três filhas da divindade Susanoo-no-Mikoto, deus do mar e das tempestades na mitologia japonesa. Durante séculos, os navegadores acreditavam que estas divindades protegiam as rotas marítimas do mar interior de Seto, razão pela qual Miyajima se tornou um local de peregrinação espiritual e de oração pela segurança no mar.
A própria ilha era considerada tão sagrada que, antigamente, as pessoas comuns não podiam pisar diretamente o solo de Miyajima. Para preservar a pureza espiritual do lugar, o santuário foi construído sobre pilares de madeira acima da água, criando a ilusão de que flutua durante a maré alta. Até hoje, existe um profundo respeito pela natureza e pelo equilíbrio espiritual da ilha.

Arquitetonicamente, o santuário é uma obra-prima do período Heian. Os longos corredores vermelhos, sustentados por pilares cuidadosamente alinhados, unem diferentes edifícios religiosos sobre o mar. A combinação entre a madeira lacada a vermelho, o azul da água e o verde das montanhas cria um cenário quase cinematográfico. A cada mudança de luz ou de maré, o ambiente transforma-se completamente.
Durante a maré baixa, é possível caminhar até junto do torii gigante. Visto de perto, impressiona ainda mais pela dimensão — com cerca de 16 metros de altura — e pela forma como foi construído sem estar profundamente enterrado no fundo do mar, equilibrando-se sobretudo pelo próprio peso. Muitos visitantes aproveitam este momento para observar detalhes invisíveis à distância e sentir a escala monumental da estrutura.
Outro detalhe fascinante é a forma como o santuário muda ao longo do dia. Pela manhã, o ambiente é tranquilo e envolto numa névoa suave; durante a tarde, a luz intensa realça os tons vermelhos do templo; e à noite, quando as lanternas se acendem, o espaço ganha uma atmosfera quase espiritual. É fácil perceber porque este lugar inspirou artistas, monges e viajantes ao longo de séculos.
Além do edifício principal, o complexo inclui vários pequenos templos, palcos cerimoniais e espaços usados em festivais tradicionais. Um dos mais conhecidos é o Kangen-sai, um festival realizado no verão, em que barcos cerimoniais percorrem a baía recriando antigos rituais xintoístas ligados ao mar.
Itsukushima Shrine é Património Mundial da UNESCO, foi construído originalmente no século VI e ampliado no século XII.


O livrinho dos carimbos: uma recordação com significado
Durante a visita ao Itsukushima Shrine, decidimos comprar um pequeno livro que rapidamente se tornou uma das lembranças mais especiais da viagem.
Chamado Goshuin, este livro é usado para recolher carimbos oficiais dos templos e santuários do Japão. Mas não são simples carimbos turísticos — cada página é cuidadosamente preenchida por monges ou funcionários do santuário, que combinam caligrafia tradicional feita à mão com selos únicos daquele local.
Assistir a este processo é, por si só, uma experiência. Com movimentos precisos e uma calma impressionante, cada traço é desenhado com significado, transformando o livro quase numa peça de arte personalizada.
Mais do que uma recordação, o Goshuin é uma forma de registar espiritualmente a visita aos locais sagrados. E para nós, acabou por ser uma das formas mais bonitas de guardar memórias do Japão.
Arredores do santuário
Há várias coisas de interesse nas proximidades do santuário, como o Beco Taki no Koji, uma bela rua tradicional onde os trabalhadores do Santuário Itsukushima e do Templo Daishoin costumavam se hospedar. Hoje, muitos edifícios tradicionais foram convertidos em lojas e cafés, mas a rua ainda mantém aquele toque do passado.
Ou também o templo Daiganji, que pode ser alcançado diretamente assim que sairem do santuário. É um templo relacionado ao ramo Koyosan do Budismo Shingon, uma construção bela de 1201-1203.

Caminhar pela ilha: santuários, templos e natureza
Mas Miyajima não é apenas o torii.
A ilha está repleta de santuários, templos e trilhos envoltos em natureza. Passear por lá é quase uma experiência espiritual.
Daishō-in – O templo mais espiritual de Miyajima

Enquanto muitos visitantes chegam a Miyajima atraídos pelo famoso torii do Itsukushima Shrine, há um lugar na ilha que conquista pela tranquilidade e pela atmosfera profundamente espiritual: o Daishō-in.
Escondido nas encostas do Monte Misen, entre floresta densa, escadarias de pedra e pequenas estátuas cobertas de musgo, este é um dos templos budistas mais importantes da região de Hiroshima. Fundado no século IX pelo monge Kobo Daishi — uma das figuras mais veneradas do budismo japonês — o templo pertence à escola Shingon e é considerado um dos locais espirituais mais especiais de Miyajima.
Ao contrário da grandiosidade aberta do Itsukushima Shrine, o Daishō-in transmite uma sensação mais íntima e contemplativa. O caminho até ao templo já faz parte da experiência: lanternas de pedra, rodas de oração tibetanas, pequenas esculturas budistas e o som da água criam um ambiente silencioso e quase meditativo.


Um dos elementos mais marcantes do templo são as centenas de pequenas estátuas de Rakan — discípulos de Buda — muitas delas com gorros de lã vermelhos oferecidos pelos visitantes. Cada estátua parece ter uma expressão própria, dando ao espaço um caráter humano e acolhedor.
O complexo inclui vários edifícios espalhados pela montanha, salas de oração decoradas com detalhes dourados, corredores rodeados de vegetação e até cavernas iluminadas por milhares de pequenas lanternas. Há sempre algo para descobrir: inscrições antigas, sinos budistas, mandalas coloridas e recantos escondidos onde o tempo parece abrandar.
Outro detalhe especial do Daishō-in é a ligação ao Monte Misen. Muitos trilhos começam junto ao templo e conduzem até ao topo da montanha, um lugar associado à meditação e ao ascetismo budista há mais de mil anos. Diz-se que a chama sagrada acesa por Kobo Daishi no século IX ainda arde até hoje.


Apesar de menos conhecido internacionalmente do que o Itsukushima Shrine, muitos viajantes acabam por considerar o Daishō-in o local mais memorável de Miyajima. Talvez porque oferece algo mais difícil de fotografar: silêncio, serenidade e uma sensação genuína de espiritualidade japonesa.
É o tipo de lugar que convida a parar, observar os detalhes e simplesmente absorver o ambiente. Num Japão tantas vezes acelerado e vibrante, o Daishō-in lembra que algumas das experiências mais marcantes acontecem nos lugares mais calmos.
Pelo caminho, é impossível ignorar os veados que circulam livremente pela ilha. São considerados mensageiros dos deuses na tradição xintoísta — e apesar de habituados a turistas, continuam a dar um charme especial ao ambiente.

Subir ao Monte Misen
Para quem tem mais tempo (e energia), vale muito a pena subir ao Mount Misen.
É possível subir a pé ou de teleférico. Lá em cima, as vistas sobre o Mar Interior de Seto são simplesmente deslumbrantes — especialmente em dias claros, nós optamos por deambular pelos templos e lojinhas da ilha.
Os famosos bolinhos em forma de folha

Outra das coisas que não podíamos deixar de provar em Miyajima foi os tradicionais Momiji manju, que podem encontrar na Rua Comercial Omotesando
Inspirados nas folhas de ácer (momiji), tão características da ilha, estes pequenos bolinhos têm um formato delicado e são recheados, na versão mais tradicional, com pasta de feijão vermelho. No entanto, hoje em dia existem várias variações — desde chocolate a creme ou até versões mais modernas.
Prová-los ainda quentes, acabados de fazer numa das ruas da ilha, foi uma daquelas pequenas experiências que tornam a visita ainda mais especial. Simples, mas cheia de sabor e tradição.
Confesso que inicialmente estava curiosa, mas sem grandes expectativas — e acabei surpreendida. São mesmo deliciosos, especialmente acabados de sair da forma.
Sabores de Miyajima: entre tradição e surpresas
Para além dos doces típicos, como os Momiji manju, também aproveitámos para experimentar alguns pratos locais durante a nossa visita a Miyajima.
Acabámos por escolher um spicy beef curry com frango de Miyajima, no Miyajima Base, uma combinação reconfortante e cheia de sabor, perfeita depois de explorar os santuários e caminhar pela ilha. O toque picante contrastava bem com o arroz e tornou a refeição ainda mais memorável.

Mas a parte mais inesperada veio depois: um gelado artístico, daqueles quase demasiado bonitos para comer. Com uma apresentação cuidada e criativa, acabou por ser não só delicioso, mas também um daqueles momentos perfeitos para fotografar — e guardar na memória.

E, para completar a experiência, ainda tivemos tempo de provar uma cerveja artesanal produzida na ilha, leve e refrescante — ideal para fazer uma pausa e simplesmente aproveitar o ambiente único de Miyajima.
Cansados e cheios de calor regressamos ao hotel com o intuito de descansar o corpo, mas a curiosidade venceu e aproveitamos o tempo livre para percorrer a estação de Hiroshima de cabo a rabo.

Deixamo-nos perder pelas imensas lojas, supermercados gigantescos e pelos balcões de sushi. Por fim regressamos ao hotel para fechar malas e descansar que no dia a seguir aproximava-se novo destino.
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