
Localizada a 30 quilómetros de Coimbra, bem no centro de Portugal, a Serra da Lousã, com cerca de 1200 metros de altitude, integra o denominado maciço Montejunto – Estrela e é a casa de doze das vinte e sete Aldeias de Xisto, que integram a Rede de Aldeias de Xisto de Portugal.
As aldeias “escondem-se” na exuberante e rica vegetação e a neblina que as cobre muitas vezes, confere-lhes uma áurea misteriosa.
A Serra, referência para quem gosta de atividades de turismo de natureza e aventura, dispõe de notáveis condições naturais, proporcionadas em conjunto com o rio Ceira e a ribeira de São João.
Atualmente dispõe de uma oferta diversificada que inclui não só as Aldeias do Xisto, mas tambem uma rede de percursos pedestres, circuitos de BTT, trail e downhill, três praias fluviais distinguidas com bandeira azul (Senhora da Piedade, Senhora da Graça, Bogueira) e uma gastronomia muito rica.
Envoltos na vegetação densa da serra, espreitam javalis, veados e corsos. Os castanheiros, nesta época carregados de ouriços, acompanham-nos na nossa jornada.
Chegamos na sexta feira à noite. Desde Lisboa são cerca de duas horas e ainda fomos jantar ao Talasnal, a aldeia que escolhemos para ficar.

Roteiro de fim de semana pela Serra da Lousã
1.º Dia
A aldeia de TALASNAL é a maior e mais bem preservada aldeia de xisto da região. Quem a avista do cimo da serra fica com a sensação de que esta emergiu naturalmente do xisto, como se de uma arvore de pedra se tratasse. Fica a impressão de que esta faz parte naturalmente do solo e da encosta.
O restauro das suas casas é minucioso, a decoração das ruelas, os lugares criados para apoio aos visitantes, os sorrisos de quem nos recebe e os cheiros e os sabores do local, tornam a estadia nesta aldeia especial.
É palco de trilhos, de descidas pela levada, sempre na companhia da água que corre pela serra até aos pés do Castelo de Arouce, que ao contrario dos demais, fica lá em baixo, no vale.
De manhã cedo, ainda envolta pela névoa ou ao fim do dia, quando já desce sob ela o manto noturno é possível ver javalis que se passeiam pela aldeia silenciosa.
Já a noite ia longa quando nos aventuramos pelas suas ruas desertas. A tonalidade amarelada das luzes dá ao local um ar misterioso e nos cantos pouco iluminados é possível ver o enorme céu estrelado.
Ouvem-se os risos e as conversas dos vários visitantes espalhados pelos alojamentos locais e recolhemos a nossa Casinha, literalmente falando, porque nela nos sentimos em casa. Os nossos anfitriões, a Mónica e o Pedro, deixam tudo preparado para que aquele seja o nosso lar pelo tempo que escolhermos.
Nessa noite dormimos na tranquilidade do silencio serrano.
O dia amanheceu envolto na neblina e a nossa escolha desse dia foi percorrer os PASSADIÇOS DA RIBEIRA DAS QUELHAS.

A ribeira nasce a nascente dos Seixinhos, num lugar conhecido como Santo António da Neve, assim conhecido porque outrora era o local onde se situavam os poços de armazenamento de gelo durante o frio invernoso, para quando o calor apertava ser trazido para a Corte Portuguesa, em Lisboa.
Depois de um pequeno almoço reforçado e do lanche preparado e empacotado rumamos até à Aldeia de Coentral Grande, no concelho de Castanheira de Pera. É aqui o ponto de partida destes passadiços. Embora a extensão seja pequena, apenas 1,2 quilómetros, o desnível até ao topo é enorme e na sua base percebemos que é para ir subindo e apreciando devagar a bela paisagem.
Os passadiços não tem muitas sombras e por isso há que ter em conta as horas de maior calor. O chapéu, protetor solar e a água são fundamentais.
O trajeto é linear e quando chegamos ao topo voltamos a descer ainda mais vagarosamente. Paramos e saímos do trilho, a água corre fresca pelas diversas cascatas e convida a que nos refresquemos na sua transparência.
Já na base vimos carvalhos e azinheiras e paramos para lanchar demoradamente.
Estava na hora de seguir, próxima paragem, BALOIÇO DO ALTO DE TREVIM, fica a cerca de 1204 metros de altitude, no topo da montanha mais alta desta serra, que é o local mais próximo de Lisboa, onde neva no inverno.

Lá em baixo, no vale, fica a Lousã
Construído pelo projeto Isto é Lousã, que impulsionou o turismo na região, este baloiço, vizinho dos moinhos eólicos, permite voos com vistas para o grandioso vale e fotos instagramaveis. Ao pôr do sol costuma até ter filas para a foto perfeita.
Deliciados com o balanço no topo da serra, partimos rumo ao vale.
É aqui, à beira da estrada nacional 236, que liga Castanheira de Pera à Lousã que encontramos a Aldeia de CANDAL.

A aldeia desce pela encosta encaixada no vale da Ribeira de Candal e é por este vale que chegamos à CASCATA DO CANDAL.
Na aldeia uma subida ao miradouro pelo casario é fatigante, mas recompensadora pela vista. Na descida descansamos no café da aldeia e subimos à piscina, onde no verão é possível nos refrescarmos.
Na outra lateral do vale exibe-se uma outra instalação, o coração de Candal, que permite enquadrar a aldeia para mais uma foto a pensar nas redes sociais.
Daqui é possível caminhar até à próxima aldeia num percurso que demora aproximadamente 45 minutos, mas nós optamos por ir de carro.
Chegamos à ultima aldeia do dia, CERDEIRA, que se engalanava para a festa promovida pelos artistas que ali se refugiam em busca de inspiração.

Do largo da capela é possível vislumbrar a aldeia que escorre como se de lava se tratasse pela encosta à nossa frente.
Ao entrar deparamo-nos com o tanque e o deck de banhos de sol, que naquele dia convidava a picnic. E é por lá que nos deixamos ficar a disfrutar dos últimos raios de sol.
Depois, envolvemo-nos no casario. Facilmente identificamos notas artísticas aqui e ali, deixadas pelos que procuram acolhimento e criatividade por estas bandas.
Passamos pela Escola de Artes e Ofícios, pela Biblioteca e pela Galeria, paramos pelo Café da Videira que oferece à porta uma caixa com uvas morangueiras, para quem quiser provar e continuamos a descer, rumo à Taberna das Artes.
Foi por aqui que ouvimos pela primeira vez o “choro” de acasalamento dos veados conhecido pela Brama dos veados.
Nem queríamos acreditar, aproximava-se a noite e estava na hora de partir, mas não sem antes nos quedarmos à escuta no largo da capela, para ouvir aquele choradinho que ocorre de setembro a novembro, sempre ao nascer do dia ou no crepúsculo. Não os víamos, mas ouvíamos as suas bramas espelhadas pela serra.
Descemos a serra de coração cheio e tão maravilhados pela nova experiencia que acabávamos de ter, que nos enganamos no caminho e espante-se quem julga que não há destino traçado, pois quando demos pelo engano e retomamos o caminho certo e deparamo-nos de frente com um pequeno corso ou um fêmea veado, não sei bem.

Á margem da estrada olhava-nos com tanto espanto, como nós o olhávamos a ele/a.
Em jubilo, porque não estamos habituados a estes mimos, descemos até ao complexo da Nossa Senhora da Piedade, pelo caminho paramos nos vários miradouros, para nos deslumbramos uma vez mais com as aldeias empinadas ao longe, nas encostas da serra ou para mirar o castelo no vale.
Descemos de carro até às margens da PRAIA FLUVIAL DA NOSSA SENHORA DA PIEDADE, por esta altura já desativada atento o fim da época balnear. Descer até aqui de carro é apenas possivel em época baixa ou à noite, já que o espaço para estacionar é exíguo.

Uma caminhada por este complexo balnear leva-nos à zona da CASCATA, onde outrora existia o BALOIÇO DO BURGO, um dos sítios mais instagramáveis da Lousã, mas que parece ter sido retirado pelo município. Tivemos a sorte de o ver numa ocasião anterior e por isso deixamos aqui o registo.

No sentido ascendente avistamos o SANTUÁRIO DA NOSSA Sr.ª DA PIEDADE, constituído pelas suas quatro Ermidas, a de S. João, da Agonia e cruzeiro, da Nossa Sr.ª da Piedade e do Sr. dos Aflitos, é local de peregrinação na época pascoal.
Em frente, como a vigiar permanentemente o Santuário, ergue-se no cimo do morro o CASTELO DE AROUCE ou da LOUSÃ.
Faz parte da rede de Castelos e Muralhas do Mondego, erguidos quando a linha defensiva e a fronteira do Reino de Portugal era genericamente o curso do Rio Mondego e Coimbra era a capital do reino.

Este é um castelo especial, pois embora se situe no topo de um monte, ficando acima do planalto onde se desenvolveu a Lousã, relativamente às Aldeias de Xisto e à Serra, situa-se no vale.
Este é um castelo especial, pois embora se situe no topo de um monte, ficando acima do planalto onde se desenvolveu a Lousã, relativamente às Aldeias de Xisto e à Serra, situa-se no vale.
Como descreveu o nosso galardoado com Prémio Nobel da Literatura “Quem diz castelo, pensa altura, domínio de quem está de cima, mas aqui tem de pensar noutras coisas. Pensará sem dúvida, que o Castelo da Lousã é, paisagisticamente, das mais belas coisas que em Portugal se encontram. ”
José Saramago in Viagem a Portugal
Diz a lenda que esta fortificação terá sido construída pelo Emir árabe Arunce, para proteção da sua filha a Princesa Peralta e do seu tesouro, que ali se esconderam aquando da expulsão de Conimbriga e durante o tempo em que o Emir se deslocou ao norte de Africa em busca de ajuda militar.
Esta lenda quase destruiu o castelo, pois muitos o vandalizaram em busca dos tesouros do Emir que ali se pensam escondidos. Agora recuperado, pode ser visitado no horário das 10:00 ás 13:00 e das 14:00 ás 18:00 (atenção que o horário poderá ser diferente em certas épocas).
Terminadas as visitas, estava na hora de jantar. O restaurante O BURGO foi o escolhido. Fica basicamente entalado entre o Santuário Mariano, a Praia Fluvial e o Castelo.
Na base do edifício regalamo-nos a ver os javalis e os gatos a partilhar os restos das hortaliças ali colocadas de propósito para os alimentar.
Para jantar no BURGO, aconselhamos a reservar mesa, pois o restaurante está sempre cheio. O prato mais solicitado da casa é a Rapsódia, constituída por um sem número de entradas, seis pratos regionais (chanfana, cabrito assado, coelho frito, javali, galinha e veado) e um pijama de sobremesas. Em setembro de 2022 esta comilança custava €.20,00/pessoa.



2.º Dia
Para este dia programamos a visita a mais duas aldeias de xisto, CHIQUEIRO e CASAL NOVO, mas desta vez decidimos caminhar para alcançar as duas. A caminhada é circular e faz-se em cerca de 5 quilómetros. Estas aldeias são pequenas, mas autenticas.
A aldeia do CHIQUEIRO, é ainda habitada em permanência por duas pessoas.
Existe um par de curiosidades sobre a aldeia, a primeira o seu nome, CHIQUEIRO, que é sinonimo de Curral, Pocilga ou local pouco limpo e julga-se que se deve ao facto daqui se recolherem pastores que pastoravam o seu gado vindos da Serra da Estrela e a onde chegavam imundos.


A outra é uma lenda que conta que cansados do velho soalho da capela, em 1950 os habitantes da aldeia decidiram substituir a madeira e ai terão encontrado três campas que continham objetos pouco comuns por aquela bandas, como espadas, brincos e coroas, que se julga ter pertencido à Princesa Peralta, quando esta ali se refugiou, em fuga do Castelo de Arouce.
Já a aldeia de CASAL NOVO, estende-se ao longo do caminho único que atravessa a aldeia, que vai sendo recuperada lentamente.

O seu nome leva a crer que esta foi fundada depois do Talasnal e do Chiqueiro.
Na eira da aldeia é possível observar no vale, a Lousã e o Castelo.
De volta ao TALASNAL, terminamos com um almoço (tambem marcado com antecedência) no restaurante TI LENA, assim chamado em homenagem à ultima habitante permanente da aldeia.



O restaurante remete-nos para as lembranças da casa das nossas avós na “terra”, uma casa simples de janelas pequeninas, mobilada parcamente, com o lume de inverno aceso. A comida é reconfortante e confecionada como manda a tradição e há que reservar com antecedência escolhendo entre a típica Chanfana, Cabrito Assado com Castanhas e Bacalhau no forno. Os produtos utilizados para a confeção são de produtores locais sempre que possível. Recomendamos que não deixem de provar a broa de centeio e as sobremesas.
A simpatia de quem nos recebe é a cereja no topo do bolo, mas se não se apressarem a visitar este espaço, poderão não ter o privilegio de a disfrutar, é que o restaurante está à venda. Esperamos que a tradição se mantenha com os novos donos.
GUIA PRATICO PARA UMA VISITA À SERRA DA LOUSÃ

Quando visitar
Este é sem dúvida um local de grande acolhimento, seja de inverno junto da lareira, seja de verão com os refrescantes banhos nas suas praias fluviais. Mas é nas “meias estações” que a beleza da serra transborda aos nossos olhos e arrebata o nosso coração.
Na Primavera a paisagem florida e no Outono a folhagem em tons ocre e a neblina, acrescentam-lhe um encanto ainda maior.

O que fazer
Na Serra da Lousã encontramos doze Aldeias de Xisto, são elas Aigra Nova, Aigra Velha, Candal, Casal de S. Simão, Casal Novo, Cerdeira, Chiqueiro, Comeira, Ferraria de S. João, Gomdramaz, Pena e Talasnal.
Com base na Lousã ou numa da Aldeias de Xisto é possível visitar todas ou fazer o circuito das cinco aldeias (Cerdeira, Candal, Talasnal, Chiqueiro e Casal Novo), quer a pé quer de carro.
Além da visita às aldeias, cada uma com o seu encanto e dos percursos pedestres e de BTT, há um sem numero de atividades nas redondezas, passadiços, praias fluviais com bandeira azul, baloiços, castelos, bares e restaurantes.
Onde dormimos
Na aldeia do TALASNAL, existe uma Casinha que nos acolhe nas nossas aventuras pela serra e na qual nos sentimos em casa, é a Casinha do Talasnal – Alojamento Definido Por Lei em Lousã (negocio.site). Os anfitriões, a Mónica e o Pedro não deixam nada ao acaso e proporcionam a cada visitante momentos únicos.
Onde Comemos
Restaurante O Burgo, no complexo do Santuário da Nossa Srª da Piedade aconselhamos a reservar mesa, pois é o restaurante mais requisitado da região. O prato mais solicitado da casa é a Rapsódia, constituída por um sem número de entradas, seis pratos regionais (chanfana, cabrito assado, coelho frito, javali, galinha e veado) e um pijama de sobremesas.
Restaurante Ti Lena, no Talasnal, aberto apenas aos sábados, domingos e feriados, a marcação com antecedência é imprescindível, assim como a escolha do menu, que é adquirido nos dias anteriores.
Esta viagem foi realizada de 23 a 25 de setembro de 2022.
Nota de agradecimento
Agradecemos as Famous Five, que contribuíram com boa disposição durante a viagem e com muitas fotos para alimentar este artigo
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5 Responses
E foi desta forma que 5 amigas carregaram baterias, fortalecendo laços de amizade, em perfeita harmonia com a natureza.
…portugal e lindooooo!
Fim de semana fantástico
Excelente!
Uma experiência fantástica! Tou de ❤ cheio
Vamos repetir.
Um fim de semana inesquecível ❤️